quarta-feira, setembro 21, 2016

L'avocat.

Em uma manhã de quarta-feira, Helena saiu, mais uma vez dentre tantas outras, para procurar emprego. Estava há alguns meses desempregada, sem um tostão no bolso, mas um monte de sermões dado pela avó, na qual obtinha seu sustento. Desde os quatro anos de idade, Helena morava com os avós, perderá os pais em um acidente na indústria química onde trabalhavam juntos.
Helena, embora não recordasse muito da infância com os pais, sentia falta deles e tentava preencher esse vazio com os avós, até certo tempo conseguiu, mas depois que fez dezoito anos, isso começou a mudar.
"Helena, você precisa trabalhar", dizia a avó, "Para quê? Ela precisa estudar", resmungava o avô.
Ela não se importava em qual conselho seguir, ela só queria que não tivesse que ficar no meio de uma guerra entre eles.
O avô a tratava bem, como a filha que havia perdido, bem até demais e isso, todo esse cuidado, agora parecia exagero aos olhos de Helena, ela não precisava mais de ninguém cuidando do seus passos ou escolhas, ou dar conselhos como se tivesse o pressentimento de que algo ruim iria acontecer. Ela estava de saco cheio, queria ser independente de todas as formas, então resolveu que iria trabalhar, já que pior que a proteção excessiva do avô era os berros e sermões da avó.
Comprou um jornal de anúncios de emprego, foi marcando todos que serviriam para ela, já que não tinha experiência. Saia para entregar currículos que fez sem muitas informações no computador, até que conseguiu em uma lanchonete perto de casa, para quem nunca havia trabalhado e não precisava mais se preocupar com ensino médio, aceitou e trabalhou por três anos. Uma manhã resolveu que sairia, estava cheia dos flertes nojentos que recebia de homens, casados, solteiros, empregados, desempregados, gordos, magros, mas todos com algo em comum, a safadeza e sordidez nas palavras. Já tinha aguentado demais.
O avô sugeriu à ela fazer uma faculdade, por conta dele já que queria trabalhar, para conseguir algo melhor, ela aceitou, mas não antes de fazer testes de profissões e cursos que davam certo pra sua personalidade, ela não tinha ideia do que fazer. Os resultados sempre sugeriam a área de humanas, "Que tédio!", então, ela optou por secretariado.
Ele fazia questão de que Helena estudasse em uma faculdade renomada, ela não hesitou, mas quis fazer prova para conseguir algum desconto na mensalidade, não queria dar mais uma despesa para ele, no caso, pesada pro bolso, seriam longos quatro anos.
O resultado da prova saiu no dia seguinte, conseguiu 60 por cento de desconto. Matriculou-se, começou na semana seguinte, cursou o primeiro semestre, desistiu e migrou para sistemas da informação,  cursou o primeiro semestre, gostou e se manteve firme, fez amizade com Lucas, um nerd, mas não desses que vemos em filmes cheio de espinhas, aparelho, óculos e personalidade estranha, ele era bonito e muito inteligente. Ele era veterano no curso, o módulo que estavam era o último dele. Ele era estagiário em uma empresa desenvolvedora de softwares. Helena viu a oportunidade para conseguir algo também; ele levou um currículo dela, agora mais elaborado, na empresa. Aguardaram juntos o convite para uma possível entrevista.
Alguns dias se passaram e nada, Helena havia perdido as esperanças, seria impossível contratarem ela para algo em que ela ainda não fazia a menor ideia de como trabalhar.
Uma tarde saindo da empresa, Lucas viu que um grupo de pessoas esperava na recepção.
- Laura, essas pessoas vão fazer entrevista?
- Já fizeram. Estão esperando o resultado.
- Mas você sabe pra que setor é?
- Se não me engano é pro advogado da empresa, ele quer um assistente.
Logo que ela terminou de falar, o "doutor" advogado saiu da sala e veio em direção a recepção, entregou um papel para a secretária, parou em frente ao grupo e informou que não ficaria com ninguém, desejou boa sorte e retornou para a sua sala.
Lucas pegou seu celular e comunicou depressa a novidade para Helena e prometeu conseguir informações.
Esperando um táxi em frente à empresa, viu o advogado saindo para fumar e pensou se perguntava a respeito da vaga ou não, ele era sério e não aparentava ser paciente, mas resolveu tentar.
-          Boa tarde! Vi que entrevistou algumas pessoas hoje.
-          Vai se candidatar também? Achei que você gostasse de ficar na brigada de incêndio dos computadores.
“Brigada de incêndio”.
-          Na verdade não é para mim. Uma amiga da faculdade precisa de emprego e como soube da vaga pra assistente, pensei em... – antes de terminar, o advogado interrompeu.
-          Gostosa?
-          Como?
-          Quantos anos sua amiga tem?
-          O que isso tem de importante?
-          Eu quero dizer, se for nova, talvez não dê conta do trabalho, eu sou muito rígido com as minhas obrigações.
-          Desculpe! Ela deve ter uns 22 ou 23. É competente. Pelo menos uma chanc... – interrompeu novamente:
-          Prazer, Rubens!
-          Lucas.
-          Amanhã diga para ela estar aqui as nove.
Rubens terminou o cigarro e deu de costas antes que Lucas pudesse responder.
Antes de continuar, preciso descrevê-la. Helena era de uma beleza estonteante, ainda que comum. Morena, de longos cabelos pretos, fios sedosos e ondulados que pareciam caracóis se desmanchando, um corpo esbelto de 1,72 de altura e seios fartos.
Na manhã seguinte, às 8h35, Helena já esperava ansiosa na recepção. Vestia uma cigarrette social preta, uma blusa de estampa florida por baixo de um blazer preto e um scarpin vermelho.
Helena estava aflita, pois não sabia se conseguiria a vaga porque não havia experiência suficiente para o cargo, mas apostou na sorte.
Andava de um lado para outro.
 Quando se virou, Rubens estava parado examinando-a.
- olá. Bom dia. Disse ela.
- vamos lá?
Ele não parecia arrogante é sério como Lucas havia dito uma vez.
"Ele parece desses caras brutos que descontam nos outros as frustrações da vida. Ele é sério, fechadão e fuma que nem um condenado"
- pode se sentar, senhorita?
- Helena.
- trouxe seu currículo?
- aqui está. -  Disse ela se sentando e colocando-o encima da mesa.
Silêncio.

Ele examina o currículo como um crítico profissional.
Silêncio.
Helena mexia a perna cruzada sobre a outra. Aflita.

Mais silêncio.
- você não tem o perfil que eu preciso, seu currículo tá escasso. você não tem no mínimo inglês.
- eu só tive uma experiência profissional como está aí, mas me adapto fácil e eu sei inglês e espanhol. aprendi sozinha.
- autodidata!? me conta sobre você. sua vida, resumidamente.
- eu tenho 23 anos, moro com meus avós. meus pais faleceram quando eu ainda era criança. comecei fazer faculdade de secretariado, mas não gostei, então mudei de curso e estou gostando muito...
Ele interrompeu.
- sobre esse emprego de garçonete, o que você achou?
- bom, eu gostava, mas alguns fatores começaram incomodar e eu preferi sair.
- quais fatores?
Houve uma pausa.
Helena não sabia como falar da chatice que enfrentava diariamente com os mulherengos no seu pé, mas decidiu que sendo dela ou não a vaga, ela precisaria ser sincera.
- homens. eles faziam piadinhas, me paqueravam, insinuavam coisas e sempre me convidavam pra transar. 

- entendi. você namora com o garotinho que trabalha aqui?
- o Lucas? não! ele e eu somos como irmãos.
- então namora outro...
- não. eu estou solteira e pretendo continuar assim. já observei muitos relacionamentos de conhecidos e não tive uma boa impressão de nenhum. eu amo a liberdade. a sensação de não ter que prestar contas com ninguém ou ficar horas no telefone perguntando como foi o dia do outro...
Rubens se acomodou na cadeira observando bem as palavras alegres que saíam dos lábios carnudos de "tagarela demais..." Helena. a forma como ela jogava o cabelo para trás e mexia as mãos expressando o que estava dizendo. ele estava entrando num estado frenesi, até que a recepcionista abriu a porta interrompendo as palavras exprimidas por aqueles lábios convidativos. 
- Doutor, tem um representante do recursos humanos querendo falar com o senhor.
- Certo!

- Helena, espero que não te atrapalhe na faculdade. Dá uma respirada antes de entrar E: seja pontual!
- O senhor vai me contratar?
- Pede o checklist de documentos pra recepcionista, me traz tudo até o fim da semana, sem falta que depois providencio tudo no rh.

Na semana seguinte, lá estava Helena, sentada no sofá da recepção aguardando seu novo chefe. Vestia um tailleur fuchsia e scarpin preto. Coque alto, seu óculos de descanso e apenas batom vermelho.
Não podia conter a ansiedade e ao mesmo tempo receio.
Se perguntava se não teria sido fácil demais e se havia passado uma boa impressão, mas se estava lá é porque ele tinha gostado.
De repente ele passou rápido pela recepção, sem dar bom dia e entrou em sua sala.
Helena e a recepcionista do andar se entreolharam, mas permaneceram quietas.
Vinte minutos depois, Claudia, a recepcionista, informou que ela deveria verificar se o dia e horário pra começar estavam certos. Ela já conhecia ha alguns anos o temperamento do advogado e preferiu jogar a bomba pra novata.
Até estava com pena, pois Helena seria assistente pessoal dele e não uma simples e ilesa recepcionista de andar.
Helena ficou apreensiva, mas resolveu que deveria ao menos perguntar se estava tudo bem.
Bateu na porta levemente, esperou uns segundos e entrou.
- O senhor não me chamou... - Ele fez um sinal com a mão que esperasse.
Ele estava no celular e parecia nervoso.
Helena pediu desculpa sem falar alto e ia saindo quando ele segurou no braço dela e apontou pra uma mesa de canto com um computador.
Ela se sentou e foi verificando o tanto de coisas que teria que fazer.
Em pouco mais de dez minutos na sala, Helena já tinha visto que ele era uma pessoa difícil de lidar, mas isso não seria problema para ela.
- Helena, desculpa por isso. Eu já começo a semana assim.
- Imagina! Está tudo bem.
- Aí nesse computador tem arquivos e processos de todos os funcionários e ex funcionários da empresa. - Ele parou atrás dela e se inclinou pra mostrar. - Preciso que você verifique sempre as datas de audiências e os telefones de contato. 
Ele virou o rosto pra ver se ela estava prestando atenção.
- E toma cuidado pra não excluir nada. - ela virou o rosto pra olhar para ele e não havia tanto espaço entre uma boca e outra.
Helena subitamente sentiu um arrepio e uma sensação de moleza que permaneceu intacta, revezando o olhar nos olhos dele e nos lábios.
- Eu quase não uso mais papel. - Ele se afastou e voltou pra sua mesa.
- Você vai ficar aí até providenciar o outro lado da recepção pra você, ou talvez se você quiser uma sala...
- Não! - Ela quase atropelou as palavras dele. - Eu posso ficar aqui, quer dizer, se der...


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