sábado, fevereiro 02, 2013

derrière les barreaux.



"Chuva, já pode parar...”.

"O telefone não parava de tocar e quando parava, eu contava até dez e ele recomeçava a sinfonia chata e repetitiva. Um toque eram dois na minha cabeça, eu sabia que se atendesse daria uma trégua aos meus ouvidos, mas por pouco tempo, e pouco tempo pra mim não era suficiente. Se eu tivesse pego o primeiro voo daquela manhã cinzenta, eu estaria prestes à estar livre, ou não, nunca se sabe o que pode acontecer a cada minuto a seguir, mas eu sabia que eu fiquei e que tinha sido a escolha, certa ou errada não faço ideia, mas a escolha que eu teria que enfrentar e era bem mais pesado do que imaginar uma dúzia de repórteres na frente do meu prédio.   Eu levantei e fui até a janela, afastei a persiana com os dedos e vi o tumulto que eu causara, que a mídia causaria bem mais, só pra terminar de foder. “
   “Quando uma pessoa bebe, ela tem noção, talvez parcialmente, do que esta fazendo, eu pelo menos, sempre tomei uns gorós e estava sempre ciente dos meus atos, mas na noite retrasada não.”  




24/12/2009 Condado de King - Seattle.

18:35 p.m. Tavern Law.



 Tamborilavam os dedos ao lado do copo, subia para a borda contornando-a com o indicador, depois descia os dedos de novo e dava um gole no seu Devil's Spring. Tinha sido um dia difícil, houvera uma discussão entre seus pais, o que acontecia todos os dias por futilidades, e que todos ao redor já estavam fartos. Visitar os pais nunca era uma boa ideia, mas ia pelo fato de não ter nada para fazer.  Estar bebendo não era um de seus planos, mas se sentia mal por não poder mudar a situação, se sentia um completo fracasso.
 A campainha da porta tocou e entraram duas garotas molhadas por causa da chuva que caía consecutivamente desde a manhã, elas riam feito loucas e pareciam bêbadas desesperadas por sexo. Uma se apoiava na outra, afim de não cair e pagar mico, mas sabiam que pelo fato de estarem rinchando, como parecia, já estava pagando mico. Sentaram-se na banqueta que ficava do outro lado do balcão. Olharam para aquela figura sombria que estava à sua frente, por um momento os risos cessaram se entreolharam e riram de novo, risos baixos, desses que mulheres dão quando falam sobre alguém que está por perto. O barman se aproximou delas, e foi fazer as bebidas.
 Agora elas estavam sérias, conversando, muito diferente de quando entraram. E uma hora ou outra elas olhavam e disfarçavam o olhar sobre o homem.
 Dave olhou para o relógio, já eram 21 horas. Pagou sua bebida, deu uma olhada de relance para as garotas e saiu.
 Sarah logo se despediu da amiga, deu a metade do dinheiro pra pagar o que beberam e saiu, a fim de falar com o cara estranho que bebeu e nem se quer, puxou uma palavra, ou riu da conversa das duas, nada.
 A chuva já havia passado, ela olhou para os lados da calçada e nada, resolveu ir caminhando, quando passou na frente de um beco escuro ouviu barulhos vindo de latas de lixo, olhou, mas não conseguiu enxergar nada, continuou andando. Sentia como se alguém a perseguisse. Deu passos mais rápidos, ela sentia medo, cruzou os braços na frente do seu corpo, estava frio, estava com medo. Parou, olhou para trás e não havia ninguém, ninguém conhecido ou aparentemente estranho, quando se desvirou se assustou, viu o cara que estava no bar, logo à frente. Deu longos passos até alcança-lo, e tocou seu ombro com a mão.
— Você... — Ele se virou com calma e fitou-a sem dizer nada.
— Você estava no Tavern, saí logo depois de você...
Ele retomou os passos, e ela caminhou ao seu lado.
— Eu pensei em falar com você, mas você saiu e sumiu. — Sarah sorriu envergonhada pelo que estava fazendo.
Um silêncio perturbador aconteceu e Sarah tratou de parar aquilo.
— Você não diz nada?
 Dave se aproximou de seu carro, e deu a volta, entrou e destravou a porta do passageiro. Sarah observou surpresa achando que ele iria embora sem dizer nada.
 O vidro da janela abaixou, e ele acenou com a cabeça pra ela entrar.
 Ela se abaixou se apoiando na porta.
— Eu entro, mas você pode dizer alguma coisa antes?
— O que você quer que eu diga? — Sarah riu e entrou.
— Mais um pouco e eu ia achar que você fosse mudo.
— Não sou muito de falar. — Dave deu partida.
— Já percebi.
— Onde você mora? — Dave parou no sinal vermelho.
— Já quer saber onde eu moro? — Sarah sorriu.
— Mas você quem me seguiu, e aceitou entrar no meu carro.
 Sarah riu e não disse nada.
— Posso te levar? — Dave continuou dirigindo.
­— Sim, senhor. 19th Avenue. Qual seu nome?
— Dave, e o seu?
— Sarah.
Ele a levou e não disse mais anda durante o caminho, ela também não, embora o silêncio tivesse incomodando. Dave estacionou na frente da casa que Sarah apontara com o dedo e permaneceu em silêncio.
­— A gente se vê? ­
­— A gente se vê. ­— Dave respondeu sem olhar em seu rosto.
 Sarah desceu, quando entrou Dave deu partida.
 Dave era atraente e misterioso, um tanto sombrio, alto, tinha um corpo atlético, cabelo preto, comprido até os ombros, tinha uma aparência suja, era branco e tinha olhos cinza e lábios carnudos. Sarah era loira e tinha 1.60 de altura, era uma miniatura ao lado de Dave. Parecia uma princesa de tão bonita, mas as aparências costumam enganar. Quando Dave chegou e estacionou o carro, ele olhou para o banco do passageiro e viu um celular, era de Sarah, então ele resolveu voltar.  Bateu na porta, a luz estava acesa, e o som estava tocando Beat Yourself Blind do Skid Row no último volume.
 Ele pegou na maçaneta, a porta estava destrancada, ele abriu e botou a cabeça pra dentro, chamou e nada, então resolveu entrar.
 A casa era bonita e bem arrumada, talvez Sarah não morasse sozinha, ele pensou. Chamou mais uma vez e nada. De frente pra porta um corredor que no fim tinha uma escada. Dave resolveu subir.
— Sarah? Voltei.
Silêncio.
— Você esqueceu o celular no carro, então achei que pudesse te devolver ainda hoje, não sei como vão estar meus próximos dias, então...
 Ele chegou ao fim da escada, no andar de cima tinham três portas, a do fundo estava entre aberta, e a luz estava acesa.
— Sarah? — Dave caminhou até a porta e abriu.
— Sarah...




Os olhos de Dave se arregalaram quando viram Sarah de frente pro espelho, nua, penteando os cabelos. Ela se virou e se deparou com Dave a fita-la, imóvel.
— Hey, oi. — Ela nem se preocupou em se cobrir com uma toalha.
— Entra, senta aí.
 Dave ainda estava imóvel.
— É eu vi que você esqueceu o celular no banco do carro e achei melhor trazê-lo, achei que você não fosse estar dormindo e acertei. — ele entrou e se sentou na cama e não olhou mais pra Sarah.
— Na verdade eu não esqueci. — Sarah caminhou até Dave, ficando de frente pra ele.
— Como assim?
— Foi de propósito. Eu to encantada com você. — Sarah acariciou o rosto de Dave e ele se levantou.
— Ta aí, já vou.
— Não vai não. — ela pôs a mão no peito de Dave e o beijou. Dave correspondeu ao beijo, mas parou e se desviou dela.
— Vou nessa.
— Não, fica. Tenho uma coisa pra gente.
 Sarah abriu a gaveta do criado-mudo e pegou um saco pequeno e abriu sobre a cama. Caíram vidros com pílulas de diversas cores, um saco com maconha e uns pinos de cocaína.
 Dave ficou olhando assustado, sem entender o que ela queria fazer, mas era bem óbvio.
— Sarah... Vou embora.
— Não, você vai ficar comigo. Toma pega.
 Ela deu um pino para ele. Dave respirou fundo e resolveu ficar ali.
— Eu fico aqui, mas não vou usar.
— Vou pegar bebida pra gente.
 Dave percebeu que não teria escapatória, sentou na cama e ficou analisando aquelas drogas. Havia cocaína, maconha, LSD, anfetamina, ecstasy, heroína e merla.
 Kate voltou com uma garrafa de vodca e uma de Redd’s pela metade, espremidas nos seios e dois copos nas mãos.
— Vamos brindar! — Disse Sarah sorrindo.
— Brindar à que?
— A nós, Dave.
 Kate misturou a vodca na garrafa de Redd’s e serviu os copos.
— Você parece mais inofensivo agora, Dave.
— Eu não sou um perigo.
O som pulou pra outro cd, agora tocava 10’s do Pantera.
— Adoro essa música. — Dave disse, logo entornando seu copo.
Eles ficaram ali, um olhando pro outro e bebendo, sem dizer nada, apenas ficavam se especulando. Dave começou achar Sarah interessante e então ele pôs as mãos no rosto dela e a trouxe pra perto de si, esperou um pouco e a beijou novamente.

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