domingo, outubro 13, 2013

Seul.

Outra vez acordei sozinho, passei a mão do lado direito da cama e estava fria e vazia, abri os olhos e fitei o retrato dela em cima da cabeceira, estiquei meu braço pra pegar e o trouxe pra perto do meus olhos. Ela era incrivelmente linda. Lembrei de como o sorriso dela fazia meus dias bons e lembrei do tanto que eu sentia falta, falta de tudo, das brigas, das conversas, do sexo matinal, do carinho em qualquer hora do dia ou, simples e inexoravelmente,  a falta da sua presença. Adorava o jeito que ela me olhava sem nada dizer, do jeito que ela ria, se vestia, do sabor do tempero, das danças esquisitas, do jeito que ela se sentava na poltrona pra tomar café em frente a tevê, adorava até o Romeu, o gato dela que soltava pelo por toda parte, e nem isso havia mais na casa. Nem um vestígio de que eles estiveram lá por longos quatros anos, mas longos e intensos, eu repetiria tudo de novo, da mesma forma ou melhor, daria o meu melhor. Teria ido busca-la na tarde chuvosa que ela ficou me esperando, toda molhada e eu não apareci, teria comparecido as comemorações da família dela, teria atendido as ligações dela ou respondido as mensagens quando eu saia e não dava satisfação, pediria desculpas por não chama-la pra sair algumas vezes ou pedido pra me deixar sozinho, entre outras coisas que eu fiz e não deveria ter feito, e nunca agradeci por ela ter me amado, ter se preocupado e ter dedicado seu tempo à mim, talvez eu nunca tenha sido grato, antes, mas agora, eu me arrependo todos os dias, morro todos os dias, porque houveram dias ruins pra gente, mais pra ela, porque a maior parte da relação, eu fui um cara estúpido, mas a amava, muito, eu só não percebia ou não dava tanta importância já que ela estava sempre lá e burro fui de achar que ela sempre estaria, eu dava pouco valor e ela não se contentava com o pouco que eu queria dar, ela estava ali pra mim, nas minhas mãos e eu não soube segurar.
No dia que ela foi embora, eu tinha passado antes num bar pra tomar umas doses, tinha sido um dia de trabalho muito exaustivo, eu não tinha costume de beber, quando bebia era pra me sentir melhor, eu não era "feliz", eu não dava importância pra coisas relevantes, eu sempre fui um tanto louco, de sete dias na semana, dois eu me sentia bem, com vontade de fazer algo diferente, sozinho ou com ela, mas eu queria sair da rotina, e desses dois dias, em um, se eu fazia algo, era muito. No primeiro ano foram mil maravilhas, depois achei que tivesse caindo tudo na mesmice e comecei a mudar, a ficar insuportável pra ela, e foi aí onde tudo começou desabar sobre nós, mas eu só sinto as dores agora. Ela havia me ligado as 14 horas, eu vi a chamada, mas não retornei. Eu achei que seria como sempre, eu não atendia, chegava em casa e ela brigava por ter se preocupado enquanto eu fazia "sei lá o quê". Bebi, dei uma volta com o carro e então resolvi ir embora. Quando entrei vi malas em frente a porta, achei estranho, mas não quis perguntar. Na verdade, eu nem queria falar nada pra ela não começar a falação de sempre. Joguei minha maleta no sofá e fui até a cozinha tomar um pouco de café, até que eu me virei e, ela estava com uma cara abatida, com o Romeu no colo. Ela ficou parada, só olhando. Eu esperei um pouco, mas ela não disse nada, então resolvi questionar. 
- Qual é das malas?
- Você percebeu?
- Se você tivesse deixado elas mais de canto, não teria percebido. - Ri.
- Você não vai perguntar o motivo de eu ter chorado?
- Você tava chorando? - Me aproximei dela, tentei tocar seu rosto, mas ela desviou. 
- Você não se importa, não é? Nunca se importou.
- Porra! Claro que me importo, se não, não teria te trazido pra dormir na minha cama.
- Eu chorei, sim, Fred, mas chorei pela decisão que tomei, por ter que fazer o que vou fazer, chorei por te amar e ver que a única solução pra mim é te deixar.
- Me deixar? O que você esta dizendo?
- Estou indo embora, da sua casa, da sua vida.
- Isso é solução pra você? Qual é a solução pra nós? você pensou nisso?
- O nós nunca existiu, vivemos uma mentira. Mentira que eu lutei todos os dias pra fazer ser verdade, mas eu sou fraca, Fred, não consigo mais. Cansei de sofrer por você, sentir por você, fazer tudo por você e não ouvir nem um te amo, mais.
As palavras dela pareciam ecoar dentro de casa. Abracei-a e fiz força pra dizer algo acolhedor, mas eu estava vazio e com medo. Ela se soltou de mim.
- Adeus, espero que você se cuide e tente ser feliz agora. Não vou ser um empecilho mais. 
- Hanna, você tem certeza que quer isso?
Ela se virou, saiu com o gato e levou mala por mala até o carro e até que ela fechasse a porta de vez, eu fiquei imóvel, sem saber o que fazer, parecia que eu estava na estaca zero de um caminho sem fim a ser percorrido, não saberia o que viria agora. Acordei no dia seguinte, estava no sofá com a roupa do corpo, fui até o banheiro e joguei uma água fria no rosto, eu queria estar sonhando. Estava com uma sensação horrível dentro de mim, uma sensação inexplicável, de vazio, de medo, abandono, algo que eu conseguia sentir fisicamente. Olhei pro meu rosto no espelho e chorei, chorei como uma criança que pede colo. Eu precisava de socorro, mas eu estava sozinho, aquele banheiro pequeno pareceu enorme, eu parecia minúsculo pro tamanho daquela casa, tirei toda a roupa do corpo e fui pro chuveiro, não queria sair de casa naquele dia, não queria ver as pessoas, eu chorava e chorava e me sentia imundo por dentro, me senti oprimido por mim mesmo, eu senti vergonha por estar chorando e mais, chorando por ter errado e não ter tentado ao menos consertar, me senti um lixo completo. 
 Eu a amava, mas não dava importância, eu me preocupava mais comigo. Eu tinha uma mania idiota de não ligar pra sentimentos, e ela queria demonstrações de carinho e eu só dei no começo, eu achei que estava desgastado, eu, os sentimentos, ela, a relação, talvez fosse tudo coisa da minha cabeça e agora sinto um vazio enorme, que nada, nem ninguém possa preencher. Agora eu daria tudo pra ela voltar.
Depois que ela me deixou, recebi alguns telefonemas e, claro, eu não estava pra atender, ela deixava mensagem na secretária e eu ficava ouvindo consecutivamente, teve dias que eu chegava em casa e ela estava toda arrumada- depois que ela se foi, a casa mais parecia uma zona, eu nem comia mais lá, por não ter higiene e espaço suficiente-, alguma comida feita e seu perfume pairando no ar, é, o perfume dela sempre vagava pela casa, o cheiro do shampoo quando ela saía do banho quente. Uma vez encontrei um bilhete em cima da mesa dizendo " você não deu jeito ainda na sua vida, continuo torcendo pra isso ", então, comecei a me impor limites e regras de convivência comigo mesmo. Parei de deixar as roupas jogadas, lavava os pratos, não deixava coisas fora do lugar, até adotei um cachorro que me distraia, mas acho que não mudei tanto, ele acabou indo embora também; dele fui  atrás, mas não o encontrei mais. Ela ainda tinha a chave de casa, o que me dava esperança que ela voltaria, mas depois de uns meses passados, eu sentia que ela não pisará mais lá. 

quinta-feira, junho 06, 2013

l'impact.

Tivemos uma colisão no dia em que nos vimos, nos apaixonamos, mas pra mim, não passava disso, aliás, em todas as minhas relações eu me apaixono e não passa disso, mas nesse caso, eu achei que seria diferente. Lembro que a última vez que estive em seus braços, foi na tarde em que ele foi à minha casa pra conversar comigo e sem querer teve que ouvir, olhando nos meus olhos, que eu estava com medo, porque o que eu sentia estava diferente, fraco, sumindo, eu achava que seria diferente, mas não foi. Ele deve ter passado a me odiar a partir daquele dia, suas palavras eram fixas, ele podia estar sentido ódio sim, mas ele me segurou pelos braços, me empurrou contra a parede e disse que iria voltar, que eu ia ama-lo, sempre. Aquelas palavras foram um impacto, como a presença dele na minha vida, mas ele nunca mais voltou.

domingo, junho 02, 2013

olho pra você e tudo que  mais quero é poder confiar.

domingo, fevereiro 10, 2013

Aimer.

Amar é uma ação perigosa.
Uma pessoa chega e bagunça sua vida que já não era lá organizada, mas vidas são independentes, cada um com a sua, com as suas manias, suas rotinas e seu modo de viver.
Pra quem tem a vida de pernas pro ar não há tanta diferença, mas pra quem tem uma vida estereotipada é complicado.
Você não pode chegar chegando, na verdade, você não pode nem passar perto.

sábado, fevereiro 02, 2013

derrière les barreaux.



"Chuva, já pode parar...”.

"O telefone não parava de tocar e quando parava, eu contava até dez e ele recomeçava a sinfonia chata e repetitiva. Um toque eram dois na minha cabeça, eu sabia que se atendesse daria uma trégua aos meus ouvidos, mas por pouco tempo, e pouco tempo pra mim não era suficiente. Se eu tivesse pego o primeiro voo daquela manhã cinzenta, eu estaria prestes à estar livre, ou não, nunca se sabe o que pode acontecer a cada minuto a seguir, mas eu sabia que eu fiquei e que tinha sido a escolha, certa ou errada não faço ideia, mas a escolha que eu teria que enfrentar e era bem mais pesado do que imaginar uma dúzia de repórteres na frente do meu prédio.   Eu levantei e fui até a janela, afastei a persiana com os dedos e vi o tumulto que eu causara, que a mídia causaria bem mais, só pra terminar de foder. “
   “Quando uma pessoa bebe, ela tem noção, talvez parcialmente, do que esta fazendo, eu pelo menos, sempre tomei uns gorós e estava sempre ciente dos meus atos, mas na noite retrasada não.”  




24/12/2009 Condado de King - Seattle.

18:35 p.m. Tavern Law.



 Tamborilavam os dedos ao lado do copo, subia para a borda contornando-a com o indicador, depois descia os dedos de novo e dava um gole no seu Devil's Spring. Tinha sido um dia difícil, houvera uma discussão entre seus pais, o que acontecia todos os dias por futilidades, e que todos ao redor já estavam fartos. Visitar os pais nunca era uma boa ideia, mas ia pelo fato de não ter nada para fazer.  Estar bebendo não era um de seus planos, mas se sentia mal por não poder mudar a situação, se sentia um completo fracasso.
 A campainha da porta tocou e entraram duas garotas molhadas por causa da chuva que caía consecutivamente desde a manhã, elas riam feito loucas e pareciam bêbadas desesperadas por sexo. Uma se apoiava na outra, afim de não cair e pagar mico, mas sabiam que pelo fato de estarem rinchando, como parecia, já estava pagando mico. Sentaram-se na banqueta que ficava do outro lado do balcão. Olharam para aquela figura sombria que estava à sua frente, por um momento os risos cessaram se entreolharam e riram de novo, risos baixos, desses que mulheres dão quando falam sobre alguém que está por perto. O barman se aproximou delas, e foi fazer as bebidas.
 Agora elas estavam sérias, conversando, muito diferente de quando entraram. E uma hora ou outra elas olhavam e disfarçavam o olhar sobre o homem.
 Dave olhou para o relógio, já eram 21 horas. Pagou sua bebida, deu uma olhada de relance para as garotas e saiu.
 Sarah logo se despediu da amiga, deu a metade do dinheiro pra pagar o que beberam e saiu, a fim de falar com o cara estranho que bebeu e nem se quer, puxou uma palavra, ou riu da conversa das duas, nada.
 A chuva já havia passado, ela olhou para os lados da calçada e nada, resolveu ir caminhando, quando passou na frente de um beco escuro ouviu barulhos vindo de latas de lixo, olhou, mas não conseguiu enxergar nada, continuou andando. Sentia como se alguém a perseguisse. Deu passos mais rápidos, ela sentia medo, cruzou os braços na frente do seu corpo, estava frio, estava com medo. Parou, olhou para trás e não havia ninguém, ninguém conhecido ou aparentemente estranho, quando se desvirou se assustou, viu o cara que estava no bar, logo à frente. Deu longos passos até alcança-lo, e tocou seu ombro com a mão.
— Você... — Ele se virou com calma e fitou-a sem dizer nada.
— Você estava no Tavern, saí logo depois de você...
Ele retomou os passos, e ela caminhou ao seu lado.
— Eu pensei em falar com você, mas você saiu e sumiu. — Sarah sorriu envergonhada pelo que estava fazendo.
Um silêncio perturbador aconteceu e Sarah tratou de parar aquilo.
— Você não diz nada?
 Dave se aproximou de seu carro, e deu a volta, entrou e destravou a porta do passageiro. Sarah observou surpresa achando que ele iria embora sem dizer nada.
 O vidro da janela abaixou, e ele acenou com a cabeça pra ela entrar.
 Ela se abaixou se apoiando na porta.
— Eu entro, mas você pode dizer alguma coisa antes?
— O que você quer que eu diga? — Sarah riu e entrou.
— Mais um pouco e eu ia achar que você fosse mudo.
— Não sou muito de falar. — Dave deu partida.
— Já percebi.
— Onde você mora? — Dave parou no sinal vermelho.
— Já quer saber onde eu moro? — Sarah sorriu.
— Mas você quem me seguiu, e aceitou entrar no meu carro.
 Sarah riu e não disse nada.
— Posso te levar? — Dave continuou dirigindo.
­— Sim, senhor. 19th Avenue. Qual seu nome?
— Dave, e o seu?
— Sarah.
Ele a levou e não disse mais anda durante o caminho, ela também não, embora o silêncio tivesse incomodando. Dave estacionou na frente da casa que Sarah apontara com o dedo e permaneceu em silêncio.
­— A gente se vê? ­
­— A gente se vê. ­— Dave respondeu sem olhar em seu rosto.
 Sarah desceu, quando entrou Dave deu partida.
 Dave era atraente e misterioso, um tanto sombrio, alto, tinha um corpo atlético, cabelo preto, comprido até os ombros, tinha uma aparência suja, era branco e tinha olhos cinza e lábios carnudos. Sarah era loira e tinha 1.60 de altura, era uma miniatura ao lado de Dave. Parecia uma princesa de tão bonita, mas as aparências costumam enganar. Quando Dave chegou e estacionou o carro, ele olhou para o banco do passageiro e viu um celular, era de Sarah, então ele resolveu voltar.  Bateu na porta, a luz estava acesa, e o som estava tocando Beat Yourself Blind do Skid Row no último volume.
 Ele pegou na maçaneta, a porta estava destrancada, ele abriu e botou a cabeça pra dentro, chamou e nada, então resolveu entrar.
 A casa era bonita e bem arrumada, talvez Sarah não morasse sozinha, ele pensou. Chamou mais uma vez e nada. De frente pra porta um corredor que no fim tinha uma escada. Dave resolveu subir.
— Sarah? Voltei.
Silêncio.
— Você esqueceu o celular no carro, então achei que pudesse te devolver ainda hoje, não sei como vão estar meus próximos dias, então...
 Ele chegou ao fim da escada, no andar de cima tinham três portas, a do fundo estava entre aberta, e a luz estava acesa.
— Sarah? — Dave caminhou até a porta e abriu.
— Sarah...




Os olhos de Dave se arregalaram quando viram Sarah de frente pro espelho, nua, penteando os cabelos. Ela se virou e se deparou com Dave a fita-la, imóvel.
— Hey, oi. — Ela nem se preocupou em se cobrir com uma toalha.
— Entra, senta aí.
 Dave ainda estava imóvel.
— É eu vi que você esqueceu o celular no banco do carro e achei melhor trazê-lo, achei que você não fosse estar dormindo e acertei. — ele entrou e se sentou na cama e não olhou mais pra Sarah.
— Na verdade eu não esqueci. — Sarah caminhou até Dave, ficando de frente pra ele.
— Como assim?
— Foi de propósito. Eu to encantada com você. — Sarah acariciou o rosto de Dave e ele se levantou.
— Ta aí, já vou.
— Não vai não. — ela pôs a mão no peito de Dave e o beijou. Dave correspondeu ao beijo, mas parou e se desviou dela.
— Vou nessa.
— Não, fica. Tenho uma coisa pra gente.
 Sarah abriu a gaveta do criado-mudo e pegou um saco pequeno e abriu sobre a cama. Caíram vidros com pílulas de diversas cores, um saco com maconha e uns pinos de cocaína.
 Dave ficou olhando assustado, sem entender o que ela queria fazer, mas era bem óbvio.
— Sarah... Vou embora.
— Não, você vai ficar comigo. Toma pega.
 Ela deu um pino para ele. Dave respirou fundo e resolveu ficar ali.
— Eu fico aqui, mas não vou usar.
— Vou pegar bebida pra gente.
 Dave percebeu que não teria escapatória, sentou na cama e ficou analisando aquelas drogas. Havia cocaína, maconha, LSD, anfetamina, ecstasy, heroína e merla.
 Kate voltou com uma garrafa de vodca e uma de Redd’s pela metade, espremidas nos seios e dois copos nas mãos.
— Vamos brindar! — Disse Sarah sorrindo.
— Brindar à que?
— A nós, Dave.
 Kate misturou a vodca na garrafa de Redd’s e serviu os copos.
— Você parece mais inofensivo agora, Dave.
— Eu não sou um perigo.
O som pulou pra outro cd, agora tocava 10’s do Pantera.
— Adoro essa música. — Dave disse, logo entornando seu copo.
Eles ficaram ali, um olhando pro outro e bebendo, sem dizer nada, apenas ficavam se especulando. Dave começou achar Sarah interessante e então ele pôs as mãos no rosto dela e a trouxe pra perto de si, esperou um pouco e a beijou novamente.

lui et elle.


—  Oi. —  Eu disse em busca do seu sorriso.
—  Olá. —  Ela não sorriu.
—  Como se sente hoje?
—  Não sei dizer...
—  Igual? —  Eu aprofundei os olhos nela.
—  Talvez diferente.
 Esperei por uma palavra a mais, ela não disse.
—  Diferente como? —  Procurei o problema em seus olhos que agora se fecharam lentamente.
—  Me sinto diferente. Há uns dias vem acontecendo umas coisas e isso me mudou.
 Ela se recostou na poltrona e abriu os olhos, diretos aos meus. Ela parecia me enxergar agora.
 Esperei, não disse nada.
—  Que tipo de coisas, Evelyn? —  Cruzei as pernas, me senti embaraçado.
—  Coisas, coisas loucas. —  Ela então sorriu rápido, eu senti um alívio.
—  "Coisas" em casa?
—  Não.
—  Onde? —  Franzi a testa, eu precisava entender.
—  Na minha cabeça. —  Eu entendi.
 Fiquei em silêncio, ela então disse:
—  É estranho porque tem a ver com uma pessoa.
—  São sentimentos de amor?
 Evelyn era uma adolescente muito bonita, tinha 18 anos, tinha um rosto angelical, parecia feliz, mas não era pois sentia indiferença pelas pessoas ao seu redor.
—  Sim, acho que sim. —  Ela continuou.
—  Eu sempre me senti rejeitada, embora quem rejeitava os outros sempre fui eu... —  Ela parou e eu esperei, então ela despejou tudo sobre mim.
—  Eu sempre me senti sozinha, na verdade sempre fui sozinha, meu pai era o único que me dava atenção, isso quando tinha tempo, minha mãe nunca se importou comigo, depois meu pai morreu, eu era pequena, tinha oito anos e isso significava fardo pesado pra minha mãe, e ela me deixou sozinha mais uma vez, numa estrada, sem casas ou moradores, absolutamente nada por perto, me deixou com uma mochila e um urso de pelúcia que eu tinha. Eu andava em busca de algo, a procura de alguém, mas o que havia? nada. Eu andei por horas até que cheguei numa fazenda, fazia frio, eu estava com fome, eu não chorei porque não havia mais lágrimas, todas elas se foram com meu pai. Um casal de idosos, donos da fazenda me abrigaram lá, eles cuidaram de mim, me deram carinho, mas eu queria mais, então com 14 disse adeus pra eles e tentei seguir minha vida, embora eles não quisessem que eu fosse, fui presa diversas vezes na cidade por tráfico de drogas, afinal eu precisava me sustentar, já que de outra forma eu não conseguiria fácil, e depois de toda essa tempestada na minha vida eu vim parar aqui, sabe... —  Ela chorava muito, e eu só sentia vontade de abraça-lá, mas deixei que continuasse.
—  Eu não encontrei o que queria perdida por aí, eu não tinha o que eu precisava com meus pais, nem com os fazendeiros que cuidaram de mim, eu nem sabia se eu estava buscando algo realmente na vida, mas eu encontrei enfim.
—  Evelyn, você nunca me contou sobre seu passado, é um grande progresso.
—  Sim, é... estou indo embora de novo, marquei essa consulta hoje só pra te dizer adeus. Você me ajudou, me ajudou muito, mas o que eu buscava e encontrei, você não pode me dar.
 Senti que meu coração fosse parar, minha reação foi rápida, eu me levantei da poltrona, puxei ela e abracei, abracei como se ela fosse parte de mim, apoiei sua cabeça em meu peito, e não disse nada.
—  Eu buscava amor, você me ouviu e isso nasceu, talvez eu só precisasse de alguém que me entendesse, mas agora eu tenho que ir. —  Ela saiu do abraço e me olhou nos olhos.
—  Evelyn...
—  Eu te amo.
 Eu não sabia o que fazer, mas enquanto ela saia da sala eu disse quase que em um sussurro:
—  Eu sempre amei você, desde o início.