sábado, julho 14, 2012

histoire informelle.

O bar estava vazio.
O tempo era frio.
Eu também era frio e estava vazio.
Só em contos podemos inventar, então no caso desse bar, onde eu estava, pensando em que rumo dar à minha vida, eu acendi um cigarro, nesse bar podia fumar.
- Senhor, vou te pedir por gentileza que fume lá fora!
Eu mergulhei a ponta do cigarro na vodca e o deixei no canto.
Agora, no copo haviam cinzas, eu as bebi, junto com aquela poção mágica.
Na verdade, eu não estava pensando na minha vida, nem em um rumo para ela, eu estava feito, eu estava sozinho e acabado, terminando de acabar com o que me restava, em copos de álcool.
Na verdade, o bar não estava tão vazio, estaria completamente vazio se não fosse a música que tocava ao fundo, beetlebum do Blur, os garçons eram parte da mobília, a música dominava e confortava aquele lugar.
O meu pensamento era ela. Tudo relacionado à ela. Em como ela era, o que ela fazia, o que ela gostava, mas o que me deixava a pensar era  por que não enxerguei o que ela queria me mostrar, nada mais do que ela sentia, claro, por mim.
"I tried to quit
But my heart won't buy it
I have got family
The caravan comes back for me

And when it comes you'll feel the weight of it,
The weight of it
And the day will come when you get away from it
Away from it"
 A penultima vez que a vi, foi no ensino médio, no ultimo dia de aula, eu estava com duas meninas, deitado por cima das pernas de uma, e de frente para ela. Ela estava com uma amiga gostosa há pelo menos 5 metros de distância. Não era importante, mas ela me olhava e eu podia ver ver que ela queria chorar.
Me incomodava o jeito como ela me olhava, sem querer disfarçar. Eu se fosse ela não teria feito diferente, eu iria aproveitar que seria a ultima vez, mas não foi.
A ultima vez foi triste, assustadora, dolorida, e dói até hoje. Não doeria tanto se não fosse uma platina que tenho na perna, pra ser específico, na coxa perto do fêmur; em dias frios dói pra caralho.
Não digo que só isso dói, aliás eu não sei se é isso que realmente dói.
Eu estava fumando um cigarro, esperando o farol fechar para atravessar. Eu tinha ido entregar curriculo em uma empresa no centro, eu precisava de dinheiro para sustentar meus vícios... e tendo lido tudo que ela escrevia para mim, querendo que eu soubesse... ela tinha seu vício, eu era o seu vício, mas ela não me tinha, e isso a matava.
Eu sempre andei na rua sem ficar observando as pessoas, as lojas... tudo poluíção visual, a não ser as galerias de arte, ah... a arte eu aprecio.
Naquela manhã não foi diferente, eu estava apenas olhando pro semáforo, ouvindo I Bet You Look Good on the Dancefloor do Arctic Monkeys.
Eu aumentei o volume.
O farol abriu.
Eu atravessei.
Senti um forte empurrão. Meu headphone foi parar longe.
Caí no chão.
Senti uma ardência abominável.
Vi pessoas correndo, então ela caiu ao meu lado.
Ela sangrava perto da barriga.
Hoje eu penso que se meu sangue fosse compatível com o dela, eu poderia ter doado meu rim, e ela poderia estar viva.
Ela deveria.
Aquela cara de dor me impressionava de tal forma que eu não pensei em mais nada.
- Você ta bem, Gustavo?
Eu fiz que sim com a cabeça. Algumas pessoas olhavam em volta, a polícia se aproximou e pediu que se afastassem.
E aquela conversa fora a mais longa conversa de toda minha vida.
- Coincidência? - Eu perguntei tentando sorrir.
- Eu não te segui.
Sim, ela seguiu, como pode? Era impossível. Eu olhei para minha perna, eu tinha levado um tiro, mas eu seria baleado duas vezes ou mais se ela estranhamente não tivesse aparecido e me empurrado.
Logo a frente vi dois policiais algemando um cara, talvez ele quisesse me matar, mas quase conseguiu. Uma ambulância havia chegado.
- Ei! - Sua voz estava mais baixa. Eu olhei para ela.
- Você tem que ficar bem.
- Nós vamos ficar. - Eu coloquei minha mão em cima da sua, sobre o ferimento.
Aquele dia foi intensamente estranho, parecia um pesadelo horrível da qual eu acordaria o mais rápido possível, ou não.
- Se desse tempo e eu dissesse o que eu sinto, você teria medo de mim?
- Eu saíria correndo com uma bala na perna gritando por socorro... - Eu não achei graça no que eu disse, mas ela riu e eu observei quase me arrependendo do que eu havia falado.
Ela fechou os olhos e eu senti medo.
Os parámedicos nos colocou na maca, eu ainda olhava para ela, ela devia ter desmaiado. Posicionaram minha cabeça, eu olhava agora para o céu, e pensava como fora possível tudo isso, ela precisava me explicar.
"Ela não vai morrer, e se for, que eu vá com ela". Eu não pensei isso, porque eu não quis pensar no pior.
E eu não morreria.
Eu apaguei.
Abri os olhos, eu estava num quarto vazio no hospital, toquei minha perna e tirei a mão rapidamente. Levantei o lençol e havia curativos  e pontos, muitos pontos, eu nunca contei, mas devia ser uns 20 ou mais.
Olhei para o relógio que havia no corredor, eram 19 horas. Eu estava perdido num pesadelo, no meu pesadelo, não sabia de nada, nem como fiquei apagado ha tanto tempo, me anestesiaram, mas do caminho até o hospital eu não lembrava de nada, parecia que tudo tinha sido apagado e estava começando dalí, daquele quarto branco e fedido a remédios, ou sei lá o que tem aquele cheiro que empesteia os hospitais.
 Eu pensei em me levantar, mas sabia que ia doer, e não sabia se podia, mas eu estava querendo muito ver Ana, então revistei o quarto com os olhos, do lado da cama tinha uma campaínha presa num fio, eu apertei e esperei, logo depois veio uma enfermeira.
- Você acordou. como se sente? - Ela deu um sorriso preocupado.
- Eu preciso vê-la.
- Ah...
- Em que quarto ela está?
- Sua amiga?
Aquilo parecia enrolado demais, e eu senti medo novamente, se ela fosse me dizer o que pensei que fosse dizer, nesse momento sim, eu iria correr com a perna fodida pedindo por socorro.
- Ela mesma, a que levou um tirou no abdomen, e veio na mesma ambulância que eu... Cadê ela?
Depois de um tempo, repassando os fatos eu percebi que nessa hora eu havia me irritado e falado alto com a enfermeira.
- Ela está em um quarto, nesse mesmo corredor.
- Quero ir lá...
- Mas senhor...
- Por favor! - Dessa vez eu falei num tom baixo, e devo ter feito cara de infeliz.
- Tudo bem! Só um minuto.
- Depois preciso falar com algum familiar meu, ninguém ta sabendo de nada, creio...
- Não senhor, seus pais foram avisados e já devem estar a caminho daqui.
Ela sorriu, saiu e eu esperei.
Quando ela voltou me deu moletas e me ajudou ir até o quarto, meu quarto era o 302, o dela 307, acho que levamos dez minutos para chegar à porta.
Eu entrei e ela estava lá, deitada, parecia um anjo caído. A enfermeira me guiou e eu acenei para que me deixasse, me aproximei sozinho e não tirei os olhos dela.
- A cirurgia dela ocorreu bem.
- Ela perguntou por mim?
...
Eu olhei para a enfermeira.
- Ela entrou em coma, senhor.



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